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Textos - Texts


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Start-Do-Repeat
2022


O ser humano assimila o seu lado somático e o seu lado psíquico logo no começo da sua formação. O corpo interage com o ambiente, a matéria nasce-lhe nas mãos. A psique fica consciente do objeto, conhece a sua função.

O tato, destacado sentido como o mais habilidoso dos cinco, parte à descoberta do espaço, medindo o cheio e o vazio, enchendo a natureza de forças misteriosas. A mão, instintiva, faz. Aprende onde mora o peso, sente a textura, age na luz e enfrenta o desconhecido.

O ego acorda. O mundo acontece.

Até que, a automatização do gesto, prosseguindo para a segurança de um sistema quase irracional, torna este ser refém do crescer no mundo. Agindo como o seu educador, este é o sentido que repete e distingue o humano no espaço e no tempo.

Do artista Diogo, o conjunto de peças enunciadas no espaço expositivo são uma ode ao gesto, tal ‘Elogio’ (Focillon, 1934), que se reparte entre ‘Beginning’, ‘Sem título’ e ‘Repetir o espaço’. Correspondendo a um período de produção entre 2020 e 2022, estes trabalhos refletem uma energia de transição do artista e do seu trabalho.

O espectador é conduzido pelos os elementos que melhor caraterizam a prática artística de Diogo Gonçalves. A Camâra Escura, desdobrando uma memorável paisagem, é transformada num campo de investigação sobre os conceitos de corpo e de espaço, fazendo da performatividade da mão, como do observador, o mote da sua prática.

O consistente uso da polaridade nas suas obras, elemento que simultaneamente encripta e descodifica conceitos de corporeidade e gesto, se por um lado regista um espaço negativo rasgado por sabres, invadido por linhas e dividido em planos energéticos, traz, pelo oposto, a anulação do vazio e a abertura de uma clareira percorrida pela mão do artista.

Os seus mais recentes trabalhos, transpondo elementos do mundo físico para o mundo digital, repetindo-os, entram no campo da artificialidade para estudar a automatização e a trans-humanização do corpo e dos sentidos. Funcionando como módulos catalisadores, eles eternizam o gesto, tornando-o um valioso material nas suas composições.

Not A Human Collective



Human beings assimilate their somatic and psychic side right at the beginning of their formation. The body interacts with its environment, matter is born from its hands. The psyche remains conscious of the object, knows its function.

Touch, detached from the other four senses as the most skilful, parts in search of space, measuring the full and the empty, filling nature with mysterious forces. Instinctive, the hand makes. It learns where weight lies, feels texture, acts in light, and faces the unknown.  

The ego awakes. The world happens.

Until the automatisation of gesture, proceeding to the safety of a near irrational system, makes this being hostage of growth in the world. Acting as its educator, this is the sense that repeats and distinguishes the human being in time and space.  

By Diogo, the series of pieces articulated in the exhibition space are an ode to gesture, like In Praise of Hands (Focillon, 1934), which is distributed between ‘Beginning’, ‘Untitled’, and ‘Repeating space’. Produced between 2020 and 2022, these works reflect a transitory energy of the artist and his work.

The viewer is led by the elements which best characterise Diogo Gonçalves’ artistic practice. The Câmara Escura, unfolding a memorable landscape, is transformed into a field of inquiry about the concepts of body and space, turning the hand’s performativity, as well as the spectator’s, the subject of his practice.  

If, on the one hand, the consistent use of polarity in his work, an element which simultaneously encrypts and decodes concepts of corporeality and gesture, registers a negative space torn by sabres, invaded by lines and divided into energetic surfaces, it brings, on the other hand, the annulment of the void and the opening of a clearing travelled by the artist’s hand.

His most recent works, transposing elements of the physical world to the digital world, thereby repeating them, enter a field of artificiality to study the automatisation and transhumanization of the body and senses. Working as catalyst modules, they eternalise gesture, turning it into a valuable material in his compositions.

Not A Human Collective


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Electric Dreams
2021



(...) O gesto manipulador e o acaso são dois dos elementos que Diogo Gonçalves envolve no seu espaço escultórico. Estas ações funcionam como geradores de energia contida, que daqui partem para reverberar no espaço. A matéria das suas esculturas expande e contrai, simultaneamente, os corpos, enquanto o olhar segue a matéria, e assim perdura em loop. São eles que caracterizam a presença, a existência de vultos e que emergem no vazio. Tais vultos, sombras que disfarçam narrativas, são subversões de um intelecto que alberga a capacidade de conhecer todas as forças em atuação na natureza e a posição de todas as coisas que compõem o mundo. (...)

Maria João Teixeira 


(...) Diogo Gonçalves explores manipulative gestures, actions that results from uncontrollable formulas, and involves that in
his sculptural space. These actions acts as generators and the material in his sculptures simultaneously expands and
contracts the bodies. They dissimulate a presence, an existence of figures and that emerge in the void. Such figures and
those shadows, that disguise narratives, are subversions of an intellect that harbors the ability to know all the forces at
work in nature and the position of all the things that make up the world. (...)

Maria João Teixeira
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Line up in space
2020



A investigação do espaço escultórico que Diogo Gonçalves persegue na sua prática artística permite neste trabalho duas operações decisivas, a saber, o gesto e o acaso. O gesto manipula as réguas que oscilam no espaço da folha de papel até encontrarem os seus pontos de fixação. O acaso manifesta-se na impossibilidade de uma manipulação absoluta do espaço da folha que acolhe as réguas. Da pré-disposição realizada pelo gesto, conjugada com a manifestação incontrolável do acaso, resta a energia do gesto, a mesma que gera o atrito entre as réguas e o espaço da folha de papel. A energia do gesto é a mesma que dilui o peso das formas, e fixa na visualidade do espaço a ausência de um corpo.

António Savério


The study of the sculptural space that Diogo Gonçalves pursues in his artistic experience, allows two decisive operations in this work, namely, gesture and chance.
The gesture manipulates the rulers that sway in the paper until they meet its attachment points. The chance expresses itself in the impossibility of an absolute manipulation of the space of the paper that welcomes the rulers. Of the pre-disposition carried out by the gesture, along with the uncontrollable manifestation of chance, only remains the gesture's energy, the same energy that generates the friction between the rulers and the space in the paper.
The gesture's energy is the same that dilutes the weight of shapes, and fixates on the visuality of the space and the absence of a body.

António Savério

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Tridimensionalidade Aparente
2020


No trabalho escultórico do artista Diogo Gonçalves (1990), o elemento tridimensional aparente destaca-se  pelos jogos do corpo no espaço, assim como pelas suas formas, pela cor que emana da luz e pelas texturas  ativas que invadem o espaço. Assistimos a uma figura constituída em tela, que se faz movimento noutra  imagem. A transformação de energia alude à metáfora de luz, à ideia de uma iluminação, ao mesmo tempo  que decorre de um processo de afiguração na contemplação de um caminho para a verdade.

Tarimba Coletivo


In the sculptural work of the artist Diogo Gonçalves (1990), the apparent three-dimensional element stands  out for the body’s games in space, as well as for its shapes, the color that emanates from the light and  the active textures that invade the space. We see a figure made on canvas, which creates movement into  another image. The transformation of energy alludes to the metaphor of light, to the idea of enlightenment,  while it elapses from a process of afiguration in the contemplation of a path to the truth.  

Tarimba Coletivo
 

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Um Corpo no Espaço
2019

Um braço humano agarra a energia contida na lâmpada. A energia do braço procura fundir-se com a energia contida na lâmpada. Há uma torção no braço humano ao fundir a sua energia com a energia contida na lâmpada. O braço absorve agora a energia da lâmpada. A energia da lâmpada acomoda-se ao espaço das veias, ao espaço dos músculos, enfim, a energia da lâmpada acomoda-se ao espaço de um corpo que ocupa um espaço mais vasto. Quanta energia está contida num braço humano? Quanta força, em tensão, está retida na luz da lâmpada? O corpo-matéria transforma-se na energia contida na linha a que a luz dá corpo.

É este o sentido de um dos mais recentes vídeos da investigação plástica do espaço, enquanto energia, desenvolvido pelo trabalho escultórico de Diogo Gonçalves, e cujo programa se aprofunda nesta intervenção no Teatro Romano. Este Segmento Volátil é um desenho no espaço; porém, a luz dilui o corpo do desenho, restando apenas a linha que orienta ascensionalmente o olhar do espectador nesse mesmo espaço. Diluído o corpo, resta a energia, a mesma que o teatro, a mais viva das artes, produz entre actores e espectadores, contida entre as paredes do edifício cujo nome se confunde com a arte que nele se pratica. Iluminar, sabê-lo também pelas leis da física, implica criar uma sombra, a mesma sombra que parece habitar a dimensão mais ou menos negativa do espaço.

António Savério


A human arm grasps the energy held in the lamp. The energy of the arm seeks to merge itself with the energy held in the lamp. There is a torsion in the human arm in merging its energy with the energy held in the lamp. The arm now absorbs the energy of the lamp. The energy of the lamp settles to the space of the veins, to the space of the muscles, ultimately, the energy of the lamp settles to the space of a body which occupies a wider space. How much energy it is held in a human arm? The body-substance turns itself in the energy held in the line to which the light provides body.

It is this the meaning of one of the most recent videos of plastic research in space, as energy, developed by the statuary work of Diogo Gonçalves, and whose program deepens in this intervention in the Roman Theatre. This Segmento Volátil is a draw in space; however, the light dilutes the body of the drawing, leaving only the line which guides ascendingly the sight of the spectator in that space. Has the body been diluted, the energy is left, the same as the theatre, the most alive of all arts, generates between actors and audience, held within the walls of the building which name gets mistaken with the art that is experienced in it. Enlighten, to know it also by the laws of physics, involves creating a shadow, the same shadow that seems to dwell the more or less negative dimension of space.

António Savério



Rearrangement of material
2019 

O site-specific Rearrangement of material situa-se na escola Sint Martinusschool em Weert / Holanda.
O edifício perdeu a sua função utilitária para abrir espaço a novas leituras. Quando nos deparamos com a acamulação de materiais, eles carregam consigo as vivências, analisáveis / observados na forma háptica e óptica.

Aquando da limpeza / confronto dos espaços, há uma selecção (natural) mais ou menos inconsciente da forma como o fazemos, paramos / olhamos / tocamos / seleccionamos os materiais, pela sua forma / cor / luz.
A vasta acumulação leva-nos a assimilar materiais. Rearrangement of material forma-se em consonância entre as matérias e o espaço, sem restrições ou barreiras.

Desenvolve-se em direcções verticais / horizontais / diagonais, não encontra um zero ou um todo, está num processo próprio de avanço espacial.

A matéria vai-se expandindo e contraindo pelo espaço corrente, encontrando na sua formação / materialização / destruição, espaços negativos, iluminados no obscuro.

Diogo Gonçalves


The site-specific Rearrangement of material is located in Sint Martinusschool in Weert / Netherlands .
The building had lost its primary functionality to become, as a space, open to new interpretations.
When we come across with the layers of deposited materials, we realize its past experiences, noted in its haptic and optical modes.
While cleaning / comparison of the rooms, there is a (natural) selection, more or less unaware of the way on how we make, pause / look / touch / select the materials, for its shape / colour / light.
The wide accumulation leads us to assimilate the materials. Rearrangement of material is created between the substance and space, without restrictions or barriers. It develops itself in vertical / horizontal / diagonal directions, and doesn't find a void or a whole. Instead it is in a self process of progress / spacial construction.
The substance is expanding and contracting in space, finding itself in its shaping / materialization / destruction, in negative spaces, enlightened, occasionally, in the obscurity.

Diogo Gonçalves